Ecos Marinhos
«A Vida, por vezes, é uma canção solitária.»
«A Vida, por vezes, é uma canção solitária.»
«arrepio» - s. m., acção de arrepiar; calafrio;
tremor de frio, de medo, ou nojo; direcção contrária da que é natural; ao -: ao
revés; às avessas; por mal.
Os leds do relógio-despertador iluminavam-lhe o quarto. Tentava dormir mas tinha-se deitado há demasiado pouco tempo, e a falta de sono impedia-o de descansar. Olhava para o vazio escuro do quarto, como se à procura de algo. Vira-se e revira-se procurando o sono que lhe escapa minuto após minuto. Ao abrir os olhos vê o piscar de algo que lhe iluminou, por breves instantes, o quarto. Sente um leve arrepio a subir-lhe pela espinha. Acende a luz do candeeiro e percorre o quarto com a visão. Nada de anormal. Levanta-se, segue até à porta e procura por algo de estranho. Nada, tudo está como tinha deixado. Volta-se a deitar. O piscar novamente. Abre os olhos, busca o interruptor do candeeiro, acende a luz. Endireita-e e visualiza algo na porta. Novamente o arrepio acaricia-lhe a espinha. À porta do quarto está um gato. É um gato magro, com um sorriso de orelha a orelha, com uma argola numa delas. É magro, como se a pele lhe estivesse pequena, e todos os ossos da sua estrutura se esforçassem por se libertar daquela prisão. Observa o gato, este nada faz senão sorrir. A certa altura o gato olha para algo atrás do humano, este olha por cima do ombro, e ainda chega a visualizar uma dentadura que se movia na sua direcção. Acorda sobressaltado. Escorre-lhe suor pela cara. O quarto está escuro. Acende o candeeiro. Nada de anormal. Encontrou o sono mais depressa do que esperava, e aparentemente, deu de caras com um arrepio.
«arrepio» - s. m., acção de arrepiar; calafrio; tremor de frio, de medo, ou nojo; direcção contrária da que é natural; ao -: ao revés; às avessas; por mal.
Não foi pela manhã que nunca mais chegava, nem sequer pela solidão excruciante da casa de paredes fechadas onde vivia. Era pequeno, tão diminuto o apartamento. Tão pouco espaço para as coisas. Uma cama de corpo e meio, uma televisão manhosa que só funcionava quando batida precisamente a 3/4 da altura, do lado esquerdo, com uma pancada seca, os armários baratos pintados com uma tinta decididamente não apropriada para a tarefa, a secretária que seria, supostamente, para desmontar, permanentemente montada e equilibrando-se precariamente na sua caótica e miraculosamente estável pilha de livros, as meias, no chão. A janela era absurdamente enorme, ocupava uma parede inteira, tinha caixilhos cruzados como nos filmes, a luz de final de tarde refractando-se e atingindo o pacote de batatas fritas amarrotado em cima da cama por fazer, arrancando-lhe uns brilhos rectos e recortados que brincavam, dourados, na parede por trás da cama.
Não, não era pelo frio que prateava a sua respiração ao mínimo toque com a realidade, que lhe tornava as unhas brancas e arroxeava os dedos, que lhe adormecia os pés na posição em que estava. Num canto da casa minúscula, no canto donde podia ver a janela obliquamente e donde o tampo do balcão da cozinha lhe parecia mais distante, dando a ilusão de um sítio maior, jazia. Estava descalça e talvez por isso o frio fosse mais mordaz, implicativo, mas não incómodo. Era um objecto de transferência e dava-lhe a solidão como quem dá carícias, mas não era por ele, também.
Era o trincolejar das lascas de vidro espalhadas pelo chão. Vidro negro, luzindo ao sol morrendo do fim de tarde -obsidiana. Partiam-se como sedas cortadas por sabres, tão frágeis, indefesos, estes fragmentos. Um por um, chorava-os das mãos, escorregando como lágrimas numa face pálida...morriam-lhe no chão, gotas perpétuas de sangue negro. Rasgavam-lhe a pele fria dos pés, colando-se à sua carne exangue. Como profetas do dia seguinte, ubíquos agoiros da agonia de um caminho sem direcção.
Sabias que a obsidiana não tem cristais? É amorfa, a matéria, é bocado de interior quente cuspido depressa, rejeitado, preterido.
E são as fagulhas geladas desse vidro que disparam o arrepio pela sua pele acima, revoltando-lhe os terminais sensoriais, injectando-lhe uma qualquer hormona na corrente de hemácias, tremendo-lhe o corpo.
Sonhos de obsidiana estilhaçados no chão.
«ababelado» - de Babel; adj., confuso.
«pétala» - s. f., cada uma das peças que constituem a coroa, nas plantas.
O sempre quase incontornável cair do pano e descer do estrado está para breve. Que farás quando for inevitável que chegou o fim? Cairão finalmente as lágrimas que reteste durante a ascenção da glória; revelarás, nessa altura, as mágoas que ousaste esconder por serem embaraçosas para ti, imperador de mil reinos?
E existe algo novo por detrás do palco, para lá dos cortinados carmim, tapado pelos bouquets de flores que te entregam como modo de louvar a tua - contínua - actuação.
Como sorris! O mundo é teu, neste momento áureo, não há nada que se possa opor ao teu esplendor, não há quem o contrarie, porque tu és tudo. Não há limites, apenas uma escada que ascende para os céus, que te eleva ao nível do deus que crês ser. Não reparas que essa escada tem fim, que ela te lançará numa queda para o vazio.
Entretanto, sobes, indo, inconscientemente, de encontro ao teu destino - ao destino de tudo - o fim.
Quando as flores dos teus bouquets murcham, e as pétalas se desprendem, uma a uma.
«azoar» - v. tr.,atordoar; enfadar; acto ou efeito de fazer barulho e /ou ruído.
Mentir... Bem, é fácil! Quer dizer, vê só: sou extremamente racional acerca de todos os assuntos, tenho o cabelo cor-de-rosa, nunca me arrependi de nada que fiz. Ora bem... Vês? Três mentiras numa frase; poderia ter muitas mais. Prática não me falta, motivação também não.
Além disso, é muito mais simples seguir o caminho mais curto e seguro. E tudo bem, seguro para mim, mas eu não me sinto perigosa. Sinto-me... imaginativa.
Se preciso de algo a que me agarrar para quê dizer que a realidade é verdade? A realidade é uma mentira. O que é real é o destino, a reencarnação, tudo menos eu. Não digas que não. Vejo nos teus olhos que sabes que eu sou uma mentira.
Tu não sabes nada acerca do que está nos meus olhos.
Não sei? Sei sim! Tu olhas repugnada para mim. Os teus olhos cor de nada espremendo-se para chorar com pena de mim. Não digas que isso é mentira, ou a mentirosa serias tu! Ou não? Tu de noite sofres de insónias imensas, temendo teres de resolver os meus problemas! Não negues, eu ouço a tua respiração aflita, os teus revoltares sob os lençóis, os teus fungares a alto som, para ver se alguém repara!
Não sejas parva. Estás a inventar um drama que não existe. A loucura em ti é tão normal como gás na coca-cola.
Cala-te. Não vale a pena falares.
Vale! Vale, porque eu só te estou a chamar à atenção, porque me estás a tentar calar, para que possas viver a tua vida em roupas bonitinhas e fofinhas à vontade! E não te devias queixar, ao menos agora, não estou a mentir, como insistes frequentemente para que eu faça! Fala comigo! Podes parar de me ignorar, se faz favor, sua surda sem cérebro?!
Já te disse para te calares.
Não me calo! Não calo, não calo, não calo!
Agora pareces uma criança mimada. Como aliás, és.
Não me voltes a chamar mimada! Eu era apenas... só, tu sabes disso. Não estava habituada às pessoas. Nunca tive ninguém para me ensinar como ser uma. Ninguém.
Tiveste-me a mim.
Não, não tinha! Tu estavas calada, por nascer, em segurança... Não percebes... Eu estava tão assustada e tu não apareceste para me salvar... Ninguém... Eu julgava que gostavam de mim, que tinha amigos. Sei agora que era apenas uma sonsa, ingénua, odiada. Tão pequena, e já tão perdida. Mas é tempo de parar de falar no passado. Vamos falar de ti. Do presente. Do futuro. Como achas que te vais dar a partir de segunda-feira? Achas que te vais encaixar, que vais voltar a sentir-te como uma peça de um puzzle?
Não sejas ridícula. Eu nunca fui uma peça de um puzzle. Mas agora, vou esforçar-me para ser uma, ainda que não faça parte da gravura partida.
Eu sei que fui eu quem comecei com a metáfora... Mas poderíamos falar a sério? Vais voltar a precisar da minha presença? Vais-me chamar aos gritos no corredor da escola? Espero que sim. Dormir para sempre é demais. Chama-me de vez em quando, só para pôr a conversa em dia, está bem? Ainda que minta. Ainda que tu me vás chorar a verdade (espero que não). Ainda que eu provavelmente te substitua, eventualmente. Outra vez.
Adeus.
Não, não me podes deixar já! Não, eu ainda tenho de te dizer... Eu ainda tenho de...
(azoada, morro, fechada na gaveta, por um presente ainda mais azoado)
«azoar» - v. tr.,atordoar; enfadar; acto ou efeito de fazer barulho e /ou ruído.
Dó.
"Sim, cada vez mais metia dó", pensou Tânia, ao debruçar-se sobre o piano que insistia em proteger. Queriam tirá-lo para pôr um móvel "de estilo moderno" como dizia a sua mãe, imagine-se! Um móvel muito bem feito, de madeira de cedro, onde flores, folhas e espirais foram cravadas pelas mãos de um artesão que deveria ser muito famoso, a julgar pelo brilho nos olhos das amiguinhas sempre que a mãe de Tânia lhes falava nele.
Mas ela não podia deixá-lo ir, o piano a quem fizera mais festas que ao gato! O único instrumento que, ao deixar as notas musicais da sua mente escapar, a fazia sentir mais livre, como se de súbito pudesse largar e atirar para longe a grilheta de ferro que carregava diariamente.
Sentou-se no banco de estofos vermelhos, pressionando suavemente as teclas. Ah, lá vinha aquele sentimento de familiaridade, de compreensão. O piano era o melhor dos amigos, pois nunca a julgava. Pelo contrário, só queria ajudar... ajudá-la a desabafar.
Conta-me os teus segredos, Tânia.
Os sons rapidamente soaram pela sala. Moonlight Sonata, de Ludwig van Beethoven. Uma música que adorara desde sempre, desde o momento em que ouvira pelas primeiras vezes as notas iniciais.
"Ah, pai... se não tivesses ido, talvez tivessemos podido ir a muitos mais concertos..." Era isto que o piano de Tânia lamentava, num choro tão melodioso que, quem o ouvisse com os sentidos harmoniosos de um anjo, não hesitaria em juntar-se a esse lamento.
- Tânia, pare de fazer barulho! Já que não me deixa tirar esse piano horroroso da sala, ao menos baixe-lhe a tampa e ponha-lhe algumas jarras em cima!
As notas findaram. Demasiado cedo, sem sequer chegar ao lá. Porque Tânia já não conseguia pensar no lá. O piano era o seu mundo. Aqui seria feliz, longe das correntes que lhe prendiam o coração quando estava com a mãe...
Mas as notas findaram, porque Tânia já não conseguia. E as lágrimas caíam, porque precisavam de fluir e de se juntar a um rio. Um rio para além do lá...
- Assim está melhor, melhor, melhor... - a voz da mãe vinha-lhe turva, como se a ouvisse debaixo de água - E agora venha ajudar-me, em vez de desperdiçar o seu tempo num piano. Temos de falar sobre a festa de amanhã à noite.
Tânia levantou-se. Era agora fantasma, espectro, de grilhetas de ferro e correntes agarradas ao coração de novo. Arrastou-se na direcção da mãe. Mas já não era o lá, era o dó de novo...
Dó da mãe.
Uma semana depois, o piano saiu de casa, para dar lugar ao móvel com as florzinhas, as folhinhas e as espirais. A mãe de Tânia encheu as suas prateleiras com jarras, potes, molduras e bonecos de cristal. Porque a sua música era outra... Moonlight Sonata nunca mais poderia lutar contra o vazio da futilidade.
E hoje inicia-se este blogue, intrisecamente ligado ao fórum Colinas de Palavras, e com o propósito de dar a conhecer vários textos inéditos de autores amadores portugueses.