Sonhos de Obsidiana
«arrepio» - s. m., acção de arrepiar; calafrio; tremor de frio, de medo, ou nojo; direcção contrária da que é natural; ao -: ao revés; às avessas; por mal.
Não foi pela manhã que nunca mais chegava, nem sequer pela solidão excruciante da casa de paredes fechadas onde vivia. Era pequeno, tão diminuto o apartamento. Tão pouco espaço para as coisas. Uma cama de corpo e meio, uma televisão manhosa que só funcionava quando batida precisamente a 3/4 da altura, do lado esquerdo, com uma pancada seca, os armários baratos pintados com uma tinta decididamente não apropriada para a tarefa, a secretária que seria, supostamente, para desmontar, permanentemente montada e equilibrando-se precariamente na sua caótica e miraculosamente estável pilha de livros, as meias, no chão. A janela era absurdamente enorme, ocupava uma parede inteira, tinha caixilhos cruzados como nos filmes, a luz de final de tarde refractando-se e atingindo o pacote de batatas fritas amarrotado em cima da cama por fazer, arrancando-lhe uns brilhos rectos e recortados que brincavam, dourados, na parede por trás da cama.
Não, não era pelo frio que prateava a sua respiração ao mínimo toque com a realidade, que lhe tornava as unhas brancas e arroxeava os dedos, que lhe adormecia os pés na posição em que estava. Num canto da casa minúscula, no canto donde podia ver a janela obliquamente e donde o tampo do balcão da cozinha lhe parecia mais distante, dando a ilusão de um sítio maior, jazia. Estava descalça e talvez por isso o frio fosse mais mordaz, implicativo, mas não incómodo. Era um objecto de transferência e dava-lhe a solidão como quem dá carícias, mas não era por ele, também.
Era o trincolejar das lascas de vidro espalhadas pelo chão. Vidro negro, luzindo ao sol morrendo do fim de tarde -obsidiana. Partiam-se como sedas cortadas por sabres, tão frágeis, indefesos, estes fragmentos. Um por um, chorava-os das mãos, escorregando como lágrimas numa face pálida...morriam-lhe no chão, gotas perpétuas de sangue negro. Rasgavam-lhe a pele fria dos pés, colando-se à sua carne exangue. Como profetas do dia seguinte, ubíquos agoiros da agonia de um caminho sem direcção.
Sabias que a obsidiana não tem cristais? É amorfa, a matéria, é bocado de interior quente cuspido depressa, rejeitado, preterido.
E são as fagulhas geladas desse vidro que disparam o arrepio pela sua pele acima, revoltando-lhe os terminais sensoriais, injectando-lhe uma qualquer hormona na corrente de hemácias, tremendo-lhe o corpo.
Sonhos de obsidiana estilhaçados no chão.
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